artigo recomendado


Lopez, Felix, & Almeida, Acir. (2017). Legisladores, captadores e assistencialistas: a representação política no nível local. Revista de Sociologia e Política, 25(62), 157-181.
O artigo analisa a representação política local, focando as percepções e práticas cotidianas dos vereadores. Em particular, analisam-se suas escolhas entre estratégias de representação clientelistas e universalistas. Utilizam-se dados originais de entrevistas abertas semiestruturadas com amostra não representativa de 112 vereadores de 12 municípios de Minas Gerais. Por meio de análise qualitativa, classificam-se os vereadores em três tipos, de acordo com sua principal estratégia de representação, a saber: “legislador”, que se dedica mais às funções formais da vereança; “captador”, que prioriza o atendimento de pedidos coletivos dos eleitores; “assistencialista”, que prioriza o atendimento de pedidos particulares. Os resultados sugerem que essas estratégias são qualitativamente distintas e que a probabilidade de ocorrência do tipo assistencialista é maior em municípios pequenos, crescente no acirramento da competição política e decrescente na volatilidade eleitoral.
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25 de fevereiro de 2010

Dostoiévski em três novelas de juventude

[Typ Euro Russia. 
1900.
Life]

por Renato M. Perissinotto
Novos Estudos CEBRAP,
São Paulo, n. 85, dez. 2009.

Este artigo analisa três novelas de juventude escritas por Fiódor Dostoiévski: Pobre gente, O duplo e Coração frágil .

O texto tem dois objetivos fundamentais: primeiro, recusar a tese de que o autor russo, proverbial analista da alma humana, teria se despreocupado com os condicionantes sociais da ação dos seus personagens; em segundo lugar, pretende-se defender que a sociedade se faz presente nesses escritos por meio de uma "intuição sociológica" que Dostoiévski opera quando analisa os baixos funcionários da Rússia do século XIX.

O texto está dividido em três partes: na primeira, descrevo a estrutura estatal da sociedade russa no século XIX; na segunda, apresento a descrição das condições de vida dos personagens e, por fim, analiso a forma pela qual o autor russo apresenta as interações sociais em que eles estão inseridos.

para ler o texto integral,
clique aqui
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17 de fevereiro de 2010

a mídia, os intelectuais e Pierre Bourdieu

[Série A Várzea do Carmo, 1979-1980
São Paulo, SP. Raul Garcez.
Pirelli/MASP]

Jacques Bouveresse
do Collège de France.

Cada dia que passa temos mais uma oportunidade de observar o enorme vazio criado pela morte de Pierre Bourdieu e de constatar o quanto se tornou arcaico o modelo do intelectual crítico, do qual provavelmente ele terá sido o último grande representante na França. A meu ver, o que está substituindo esse modelo foi muito bem descrito por Jean-Claude Milner, quando escreveu em seu panfleto Existe-t-il une vie intellectuelle en France ? (Existe uma vida intelectual na França?): “À primeira exortação a servir, sucedeu a segunda: ‘deixem de nos ofuscar com inúmeras provas de um saber excessivo ou de uma lucidez desagradável’, acrescentaram os notáveis. Não basta servir, é preciso também se mostrar humilde. Existiram retóricos para formar os doutrinários dessa humildade do Collège de France à imprensa. Daí o intelectual de hoje, pusilânime diante dos fortes, duro diante dos fracos, ambicioso sem projeto, ignorante sob os ouropéis do pedantismo, impreciso de estilo minucioso, inexato de estilo detalhista” 1 .

Mesmo que, como acontece quase sempre nesse caso, provavelmente Milner tenha tendência a idealizar um pouco o período anterior, o que diz parece basicamente certo e corresponde à chegada ao poder de um tipo de intelectual de quem Bourdieu conhecia particularmente bem os costumes e o comportamento, e de quem ele pressentiu e descreveu o advento. Há pouco tempo, propus denominar “intelectual deferente” o tipo de intelectual que evita cuidadosamente dar a impressão de saber mais ou de ter mais consciência que outros e que não perde a oportunidade de manifestar seu respeito por todas as formas de poder, econômicas, políticas e midiáticas, pelas autoridades morais e religiosas, pelas crenças populares e até, se for o caso, pelas idéias feitas.

A evolução, no período atual, constitui uma das questões sobre as quais sempre tive oportunidade de conversar com Bourdieu nos últimos anos. E é importante salientar que ele faz parte justamente daqueles que se opuseram até o fim à idéia de praticar a humildade sob a forma falaciosa que é recomendada atualmente, em outras palavras, à idéia de fazer concessões e de aceitar o acomodamento demandado em relação à competência e ao saber, com a esperança de conseguir contentar o maior número possível de pessoas. Ele jamais considerou que a tarefa do intelectual, mesmo e sobretudo a do sociólogo, pudesse ser, como se demanda cada vez mais, hoje, de se limitar a simplesmente retratar o social sob todos seus aspectos, inclusive os mais inaceitáveis, evitando o máximo possível julgá-lo e formular apreciações suscetíveis de chocar ou de ofender os atores.

Para Bourdieu, a tarefa do sociólogo jamais consistiu, de acordo com uma expressão utilizada pelo orientador da tese de Elisabeth Teissier, em se ocupar essencialmente de “aspirar o social”, inclusive, eventualmente, no que ele pode ter de mais nauseabundo para alguém que conservou determinadas exigências morais e intelectuais, mas em adquirir um conhecimento real dos mecanismos que o governam, por meio de métodos que nada têm de natural e de imediato, um conhecimento que não só é desejável, mas indispensável, para se conseguir ter êxito em transformá-lo.

Esse aspecto do problema é fundamental para se compreender alguns dos mais virulentos ataques enfrentados por Bourdieu nos últimos anos de sua vida. Ele se achava em uma posição de alguém que dá a impressão de defender uma posição cientificista e elitista contra o que se pode chamar a democracia e a igualdade em matéria de conhecimento e de crença. Este é o modelo do intelectual deferente adotado por Philippe Sollers quando, em um artigo intitulado “Pelo pluralismo midiático”, publicado no dia 18 de setembro de 1998 no Le Monde, caracteriza nossa época como “uma época de pluralidades, incertezas, caras sempre novas, surpresas, interseções, confrontos, singularidades irredutíveis”, e recomenda ao intelectual aceitar a partir de então, tratando em pé de igualdade todas as formas de contradição e de debate, qualquer que seja sua origem e seu grau de competência e seriedade, aqueles que expressam um ponto de vista diferente do seu.


leia a continuação do artigo aqui

(Trad.: Wanda Caldeira Brant)

1 - Jean-Claude Milner, Existe-t-il une vie intellectuelle en France? Editions Verdier, Lagrasse, 2002, p. 24. 
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14 de fevereiro de 2010

memória histórica e ditadura militar

[Flor de Gengibre, 1996.
Havaí. Derli Barroso.
Pirelli/MASP]

Corpos fechados

BORIS FAUSTO
Folha de S. Paulo, 14 fev. 2010
Mais!, p. 6

Os temas dos direitos humanos e da preservação da memória de tempos terríveis, no nosso continente, concentram-se principalmente nos casos das ditaduras instauradas na Argentina, no Chile e no Brasil, nas décadas de 1960 e 1970 do século passado.
Nesse quadro, o Brasil está bem atrás de seus vizinhos, não obstante as iniciativas dos governos Fernando Henrique e Lula, assim como das organizações da sociedade civil.
O que mais avançou foram as justas indenizações às vítimas ou a suas famílias, embora concedidas, em vários casos, com uma largueza injustificável.

Boas e más razões
O discutido terceiro Programa Nacional de Direitos Humanos, encaminhado ao Congresso pelo presidente Lula nas vésperas do Natal de 2009, tratou da questão de cambulhada com uma série de outras.
Isso gerou, por boas e más razões, críticas vindas de todos os lados.
Diante delas, sob pressão militar, o Executivo alterou o texto que visa a promover a apuração e o esclarecimento das violações de direitos humanos, praticados sobretudo no contexto da repressão política, a fim de efetivar o direito à memória e à verdade histórica e promover a reconciliação nacional, suprimindo a referência à "repressão política".
A possibilidade de que torturadores venham a ser punidos é praticamente inexistente, e a preservação da memória dos tempos ditatoriais suscita muitas resistências.
Por que isso acontece? Em primeiro lugar, porque em nosso país a ditadura não abrangeu amplos setores sociais, como na Argentina e no Chile.
Evito aqui falar na infeliz contraposição entre "ditadura" e "ditablanda", pois, para vítimas de torturas e mortes, assim como para seus parentes, a expressão "ditablanda" chega a ser obscena.
Mas, no plano histórico, a amplitude menor da repressão fez com que a luta pelos direitos das vítimas e pela preservação da memória se reduzisse a círculos restritos, não obstante sua intensa atuação.
Fico num único exemplo comparativo. Não temos entre nós nada semelhante ao ocorrido na praça de Maio, em Buenos Aires, que, para muitos, é a "Plaza de las Madres", onde as mães e avós de desaparecidos manifestaram-se, semanalmente, ao longo dos anos.
A praça, em frente à Casa Rosada, tornou-se, assim, um lugar de memória.

Povo sem memória
Por outro lado, é verdadeiro e ao mesmo tempo banal constatar que somos um povo sem memória. Isso ocorre não porque a "falta de memória" esteja inscrita no DNA dos brasileiros, mas por outras razões.
O Brasil conheceu raras situações traumáticas em grande escala cujas consequências tenham atingido o conjunto da população. Nossas mazelas são de outro tipo: miséria, pobreza, desigualdade social.
Também, a precariedade de nosso sistema educacional -um dos principais instrumentos de transmissão da memória histórica ao longo das gerações- contribui para esse quadro, em que o passado se assemelha a um buraco negro, com raros clarões de luz.
Outro fator que pesa na dificuldade de preservação da memória dos anos de chumbo é a negativa de membros da cúpula das Forças Armadas em reconhecer o papel deletério desempenhado não só por militares como também por civis, na implantação do regime autoritário e em sua radicalização.
Admitir essa culpa não significa negar a profunda instabilidade do governo Jango [1961-64] nem encarar os integrantes das organizações de luta armada como jovens românticos, que lutavam pela restauração da democracia.
Mas a ação de rebeldes e a de agentes do Estado cujo dever é prender e julgar, e não torturar e matar, não se equivalem, como pretendem os que querem apagar a memória.
Nem de longe trata-se de promover a execração das Forças Armadas, hoje circunscritas a sua missão constitucional, mas de encarar de frente um período nefasto.

Reconciliação
Um exemplo simbólico vem do Chile.
Em 2006, a Marinha chilena recebeu membros do Agrupamento de Direitos Humanos Salvador Allende, em visita conjunta à ilha de Dawson, no extremo sul do país -local de prisão e tortura nos tempos de Pinochet- com o propósito de promover a reconciliação nacional e reconhecer as infâmias praticadas nos tristes tempos de um passado recente.
No caso brasileiro, abrir arquivos ainda fechados, localizar corpos de desaparecidos, instituir museus e outros lugares de memória são iniciativas que não desonram as Forças Armadas e que, ao contrário, contribuem para o fortalecimento da democracia.
Oxalá, as novas gerações de militares possam dar passos decisivos nesse sentido.

BORIS FAUSTO (borisfausto@uol.com.br) é historiador e preside o Conselho Acadêmico do Gacint (Grupo de Análise da Conjuntura Internacional), da USP. É autor de "A Revolução de 30" (Companhia das Letras).

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9 de fevereiro de 2010

agenda de pesquisa e campo profissional da Ciência Política

[Miguel Chikaoka
Algodoal, 1986.
Pirelli/MASP]

Escrevi o texto abaixo como introdução à aula inaugural do curso de graduação em Ciência Política da Faculdade Internacional de Curitiba – Facinter, 9 fev. 2010. O trabalho pode ser baixado e lido na íntegra. Ver o link no final do post. Trata-se, bem entendido, de um rascunho sobre a agenda de pesquisa e o campo profissional da Ciência Política brasileira hoje. Os juízos do texto estão baseados mais em impressões que em pesquisa. Todos os comentários são bem vindos. Peço encarecidamente para não citar este trabalho, pois ele se encontra ainda em elaboração. Decidi publicá-lo aqui para manter vivo o blog.


Ninguém discordaria que a palavra “ciência” que enfeita a expressão “Ciência Política” soa um pouco excessiva.

Como se pode tomar como objeto de conhecimento, e ainda por cima com rigor e método, isto é, cientificamente, a atividade política?

Todas as definições sobre Ciência Política começam em geral do mesmo ponto: citando um autor importantíssimo tanto para a história da Sociologia quanto para a história do pensamento político contemporâneo – Max Weber. Essas definições destacam em geral duas conferências suas pronunciadas há quase cem anos atrás (em 1918) na Universidade de Munique: A ciência como vocação e A política como vocação (cf. Weber, 1994). Nelas, Weber propõe uma oposição radical entre o político de um lado, o cientista de outro. Isso só nos deixa um caminho: ou se é uma coisa, ou se é outra. Que dizer então dessa expressão, tão pomposa quanto suspeita: “cientista político”?

Uma das muitas dificuldades ao juntá-las – “Ciência Política” – é que, de fato, o cientista e o político parecem pertencer a mundos completamente distintos. Talvez a única coisa em comum entre eles seja que suas atividades respectivas produzem duas imagens simétricas: uma positiva, outra negativa.

Assim, “o” cientista – isto é, a figura ideal do cientista ideal – é aquele que se caracteriza ao mesmo tempo por uma virtude e por um defeito: (i) virtude: o trabalho do homem de ciência se faz no rigor da busca desinteressada da verdade; (ii) defeito: o cientista é o homem da especulação (especula com ideias) e por isso ele está sempre desligado dos problemas práticos e dos interesses práticos.

Enrascada semelhante se dá com “o” político. Por oposição ao cientista, o político profissional tem uma virtude característica: (i) virtude: ele é o homem de ação – “aquele que faz” – e não aquele que só fala; e (ii) seu principal defeito? O político profissional é aquele que atua não de forma desinteressada (como o cientista), mas em benefício próprio. Eu poderia enumerar, para fundamentar essa proposição, todas as imagens que foram construídas sobre o “político maquiavélico”.

Tendo essas dificuldades em mente, gostaria de propor aqui uma terceira via para encarar o cientista político. Trata-se de uma forma um tanto quanto diferente das duas anteriores (que impõe: ou se é político profissional, ou se é cientista puro). Penso que o cientista político deve ser tomado como (mais) um especialista das “novas profissões”.

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